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A INTERNET MORTA, TECNOFEUDALISMO, O QUE OS OLHOS NÃO VEEM E O CORAÇÃO NÃO PRESSENTE.

  • Foto do escritor: Jéssica Vianna
    Jéssica Vianna
  • 6 de jul. de 2024
  • 5 min de leitura

Atualizado: 7 de jul. de 2024

UM TEXTO QUE COMEÇA RUIM E SÓ PIORA.


Há poucos dias o Outras Palavras publicou um ensaio sobre economia intitulado: “Por outra história do Real”, de Luiz Filgueiras, que trazia no subtítulo a afirmação: “País festeja a moeda, acrítico, há 30 anos – e não vê o essencial”. [1] Na foto de chamada, representando a cega república brasileira, a efígie na nota de real, coisa aliás que a gente já quase não vê, porque moeda que se troca hoje é digital. No texto mencionado, o autor falha justamente em ver o essencial: o papel das BigTechs na economia mundial, no trabalho, na política dentro e fora dos processos eleitorais da última década. E essa era a peça que faltava pra formar uma imagem mais clara, pela qual eu venho quebrando a cabeça nos últimos dias, tentando montar um raciocínio lógico a respeito de um tema que só agora eu entendi qual era: a economia da atenção e a nossa visão limitada do real.

Pra começar, real neste texto não é um conceito, não é o dinheiro, não é uma ideia. Real aqui é equivalente à verdade material e concreta do nosso contexto histórico e pra que vocês compreendam as angústias que andam pendentes no meu peito, um passo atrás em mais algumas coisas que eu li e que não me bateram direito…

Há cerca de um mês e meio, a Apple anunciou novas “ferramentas de acessibilidade” no Iphone, uma delas sendo o Eye Tracking (rastreamento de olhos) que permite ao usuário a “navegação” no Ipad e no Iphone apenas com o movimento da retina. [2]

Há menos de 30 dias, o Ópera Mundi, publicou uma matéria excelente de Gilda Izurieta, para a revista argentina Crisis, a que certamente não demos a devida dimensão: “Por conta da crise econômica, argentinos aceitam escanear suas íris em troca de pesos - Mas quase ninguém sabe porque empresários que estão por trás do ChatGPT precisam arquivar o que guarda nossos olhos”. [3]

Há já uns três meses a Forbes publicou uma matéria que afirma que os robôs estão sim tomando conta da internet e que, segundo o Imperva Bad Bot Report de 2024, a porcentagem de todo o tráfego digital gerada por usuários humanos caiu para 50,4%. [4]

É claro, há uma contradição pessoal que eu preciso exibir aqui: há anos que eu deveria concentrar a minha preocupação na minha carteira de trabalho, no preço da batata e de tudo o mais no supermercado, no achar refúgio do calor que só depois que quase me matou no Rio é que foi classificado. A minha atenção anda dispersa e prejudicada, e não sei se algum dia foi diferente, mas a minha percepção anda cativa e minha cabeça anda cansada, eu luto pra compreender o que sinto, reter mais que 30 segundos de informação por vez, pra ver além das dimensões de um feed infinito, pra relacionar o conteúdo que acesso e pra manter contato com outros seres humanos, expressar o que penso e estabelecer diálogo, chão em comum sob os pés, e pra traçar com os meus o caminho mais adequado.

Neste último semestre foi o livro do Yanis Varoufakis, Technofeudalismo – e o que matou o capitalismo,[5] que tomou de assalto a minha atenção porque traz argumentos sólidos, de modo didático, e dá novos nomes à conjuntura econômica que me tem deixado assustada. Eu venho batalhando com o preço do quilo de batata, enquanto minha cabeça não para e a culpa de produzir menos sempre que o apenas suficiente se abate sobre mim, como se católica eu fosse, e zanzasse pela idade média, fatigada. É tanta distopia essa porra de tecnologia que fica difícil acompanhar o presente desperto, vislumbrar o futuro certo, sem tempo de dar ao que aprendi no passado o peso correto. No livro, Varoufakis diz que estamos em uma nova fase econômico-política no mundo onde o capital foi o que destruiu o capitalismo desde dentro, onde os lucros são secundários em detrimento do poder de influência e do aluguel nos acostumamos a pagar por um espacinho apertado e seco nesta terra de niguém. Durante e conseguinte à crise de 2008 (que não só não terminou como se amplificou em consequências durante a pandemia de Covid-19), o que os bancos fizeram foi emitir moeda pra caralho. Obvio que nada disso, nem com toda e qualquer soma de política assistencialista que você consiga lembrar, veio parar de modo algum em nossos bolsos, mas foi investimento massivo no setor de economia da atenção, tecnologia da informação e BigData. Os ultra-ricos, mais que multimilionários, donos do pedaço investiram em vigilância e espaço (físico, digital, metafórico e sideral), promoveram a precarização do trabalho e hoje cobram dos capitalistas (e de todos nós) em parcelas da nossa identidade e em dinheiro mesmo, em vídeo, em like, pedaços ínfimos de suas plataformas de venda, de comunicação e até de segurança, cujos estoques jazem não em galpões utilitários, mas em supercomputadores automáticos. Burnout, a cesta básica pela hora da morte, ansiedade, pânico, depressão, dias olhando cardápios sem comer ninguém e falta de tesão, são sintomas de que a nossa atenção foi roubada. Isso não diz o livro, não vi em nenhum vídeo. Artista sem perspectiva de emprego, CEO de microempresa, zero direito trabalhista e a cintura dura pra dançar é o que observo entre os vivos. Pode parecer que nada disso tem a ver com Amazon, com a Starlink ou a SpaceX. Pode parecer que a Apple vende tecnologia e acessibilidade, pode parecer o que antigo Real deu mesmo certo. O que eu sei é que o calor no Rio foi reclassificado, o pantanal queima em chamas e que pra acontecer mais um desastre “ecológico” de enormes proporções é uma questão de “quando”, mas tá perto. No Hino da Internacional Comunista (que só conheço em francês) tem um trecho de que mais gosto:

 

Pour que le voleur rende gorge

Pour tirer le espirít du cachot 

Sufflons nous-même notre forge

 Battons le fer quand qu´il est chaud.

    

Que na minha cabeça se traduz como:

Para que o ladrão se renda

Para tirar o espírito da masmorra

Explodamos a nossa própria forja

Batamos o ferro quando ele está quente.


Acho que pra tirarmos nosso espírito desta masmorra, pior que a ideia de estar preso em uma caverna platônica, precisamos desentortar a coluna vertebral da nossa era. Aliviar a cabeça, que anda tonta. Sair de frente da famigerada tela, correr o mundo real a pé, não de Tesla. Tirar essas merdas de Alexas que o como diz Varoufakis a gente programa pra programar a gente pra programar a elas a programarem a gente, num circulo infinito de autoalienação daquilo que há de ser de nós no futuro mais iminente. O capitalismo acabou e parece que foi sorrateiramente substituído por algo pior. O mundo tecnofeudal, pobre de espírito e absolutamente carente é o que se vê ao levantar a cabeça desse aparato de imagens e conteúdos que parecem vazios de ideia porque não são feitos por gente como a gente. A ideia é te vender de tudo e te comprar a alma. Quanto ela vale é que é novidade. Vale os seus dados, suas preferências e uma vida mergulhada na mentira, querido prole-otário. Vale uma miséria. Fique ciente.


 

 

 

 

[5] Contrabando do livro em PDF, em inglês na aba “curadoria de links” deste humilde blog.

 
 
 

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